Saber adiar as recompensas – sua influência na aprendizagem e na vida

Por Celina Ferreira Garcia[1]

Você já deve ter visto a cena de uma criança que se joga no chão do supermercado ao ser contrariado pela mãe que não quer lhe comprar um brinquedo ou algo de comer, ou mesmo aquela criança meiga que faz aquela carinha de “por favor, por favor, diz que sim” e os pais ou avós se derretem todos e fazem o gosto dela. Pois bem, já se perguntou que tipo de influência isso pode ter na vida dela?

O Instituto Glia de Neurociências iniciou em 2009 uma pesquisa, cujo objetivo era revelar um perfil da Saúde Mental de crianças e adolescentes. Esta constatou que crianças incapazes em adiar recompensas, em relação às que as conseguem adiar, apresentam mais dificuldades escolares, mais problemas de conduta, sintomas emocionais, hiperatividade e desatenção e pior comportamento social. Walter Mischel, psicólogo e pesquisador, que estuda esse assunto desde o final dos anos 1960, a partir do Teste do Mashmallow, também verificou a importância do autocontrole em todos os setores de nossa vida. Saber adiar recompensas significa resistir às distrações, impulsos, tentações e criar estratégias de atenção, estratégias essas que, segundo Mischel, auxiliam na resolução de problemas. Essa capacidade faz parte das Funções Executivas, as quais são desenvolvidas desde o nascimento até o começo da idade adulta. Estas funções são processadas no córtex pré-frontal e são responsáveis pelo planejamento, controle emocional e inibitório, automonitoramento, iniciativa, flexibilidade, memória operacional, organização, velocidade em que processamos as informações e metacognição (pensar sobre o que conhecemos, como aprendemos e como fazemos as coisas). A psicopedagoga Norita Dastre[2], explica que ao adiar recompensas, a criança passa a melhor direcionar seu foco de atenção ao que esteja sendo ensinado, o que favorece a memória, o planejamento e a ação para solucionar problemas como, por exemplo: escrever, ler, calcular, etc.

Segundo o Instituto Glia, crianças entre 3 e 11 anos com dificuldade de autocontrole, ou seja, as quais manifestam menor perseverança, maior impulsividade e pouca atenção; tendem a apresentar na idade adulta em comparação com outras pessoas de mesma classe social, gênero, QI, entre outras variáveis “maior risco de ter pior saúde geral, menores salários e maior número de atos criminosos”.

O que fazer então para que crianças e adolescentes desenvolvam atitudes que as auxiliem a adiar recompensas levando em conta o atual contexto em que vivemos no qual as pessoas buscam o fast-tudo[3]?

De acordo com Dastre, os pais e demais adultos que participam da educação da criança são os principais responsáveis para que essa habilidade se desenvolva. A cartilha do Educador, desenvolvida pelo Glia, cita que a maior parte das condutas a serem adquiridas fazem parte da dinâmica diária da família, envolvendo “hábitos de consumo, alimentação, sono e vestuário, estabelecimento de horários e rotinas, premiações e punições, tarefas escolares, etc.” Assim, de acordo com Norita, é importante: “estabelecer e ensinar regras e rotinas, ensinar sobre resolução de problemas e to­mada de decisões, eliminar o estímulo à competição pelo reco­nhecimento, valorizar o trabalho colaborativo e solidário, valorizar e elogiar o esforço despendido pa­ra realizar uma tarefa, reforçar positivamente atitudes adequadas e promover educação financeira”.

Para saber mais veja também:

Instituto Glia de Neurociências

Teste de Marshmallow

Metacognição

Walter Mischel

Aprendendo a esperar

Educando com a ajuda das Neurociências: cartilha do Educador.

[1] Pedagoga e Psicopedagoga com Aprimoramento em Neuropsicopedagogia.

[2]  APRENDENDO A ESPERAR, GESTÃO Educacional, Novembro de 2012.

[3] FAST-Tudo – termo utilizado pela psicóloga Tatiane Guedes para se referir ao imediatismo, à busca rápida de soluções.

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